Frete Defasado em 10,5%: O Que a Conta do Transporte Mostra em 2026
Um dado incomoda mais que reclamação: o frete praticado no Brasil está 10,5% abaixo do custo efetivo do transporte. Quem mediu não foi plataforma nem embarcador, foi a entidade que publica o índice de custo do setor desde antes da internet.

Otávio Guilherme Larreia Ferreira
CEO · Cofundador

Neste artigo
- O número: 10,5% de defasagem, apurado em agosto de 2026
- A armadilha do percentual: 10,5% de buraco pede 11,73% de reajuste
- De onde vem o buraco: um item explica quase todo ele
- Por que o repasse trava, mesmo com o custo à vista
- O custo escondido: a estrada ruim queima diesel que ninguém cobra
- Diesel: o número que muda toda semana e manda na conta
- Como recompor o frete na prática, passo a passo
- Perguntas frequentes sobre a defasagem do frete
Contexto operacional
O Comunicado CONET de agosto de 2026, publicado pela NTC&Logística em 27 de agosto, aponta defasagem média de 10,5% entre os valores de frete praticados no mercado e os custos efetivos do transporte rodoviário de cargas. No primeiro semestre de 2026 o combustível subiu 17,63%, a mão de obra 5,00% e o caminhão 1,32%.
O número: 10,5% de defasagem, apurado em agosto de 2026
Dica WebFrete
10,5% não é margem apertada. É operar abaixo do custo: cada viagem contratada nesse patamar consome capital da própria empresa ou do próprio caminhão.
A defasagem do frete no Brasil chegou a 10,5% em agosto de 2026. O número está no Comunicado CONET publicado pela NTC&Logística em 27 de agosto de 2026 e mede a distância entre os valores de frete efetivamente praticados no mercado e os custos efetivos do transporte rodoviário de cargas.
Quem apura é o DECOPE, o Departamento de Custos Operacionais e Pesquisas Técnicas e Econômicas da entidade. É o mesmo departamento responsável pelo INCT, o Índice Nacional do Custo do Transporte, com metodologia publicada e série histórica aberta. Isso importa: o dado não vem de uma plataforma que ganha com frete alto nem de um embarcador que ganha com frete baixo.
A leitura da entidade é direta. A defasagem ameaça a sustentabilidade operacional e a qualidade do serviço, e a recomendação é que transportadores e contratantes revisem os valores de frete e seus componentes para recompor as perdas acumuladas, considerando também Frete-Valor, GRIS, TSO e custos de gerenciamento de risco.
A armadilha do percentual: 10,5% de buraco pede 11,73% de reajuste
Aqui está o erro mais comum na mesa de negociação. Se o frete está 10,5% abaixo do custo, pedir 10,5% de reajuste não fecha a conta. O motivo é aritmético: os 10,5% de defasagem são medidos contra o custo, que é o número maior. O reajuste, porém, incide sobre o frete, que é o número menor.
A conta correta é dividir, não somar. Se o frete equivale a 89,5% do custo, o custo equivale ao frete dividido por 0,895. Isso dá 1,1173, ou seja, 11,73% de reajuste apenas para empatar com o custo, sem lucro nenhum.
- Pedir 10,5% deixa a operação ainda 1,2% abaixo do custo. Empatar exige 11,73%.
- Margem não é o que sobra depois: é linha da composição, aplicada sobre o custo já corrigido.
- O exemplo usa R$ 10.000 por ser fácil de reescalar. Troque pelo seu valor de frete e a proporção se mantém.
| Etapa | Conta | Resultado |
|---|---|---|
| Frete contratado hoje | valor de referência | R$ 10.000,00 |
| Custo efetivo da operação | R$ 10.000 ÷ 0,895 | R$ 11.173,18 |
| Reajuste só para empatar | 0,105 ÷ 0,895 | 11,73% |
| Preço com 10% de margem sobre o custo | R$ 11.173,18 × 1,10 | R$ 12.290,50 |
| Reajuste total sobre o frete atual | R$ 12.290,50 ÷ R$ 10.000 | 22,91% |
De onde vem o buraco: um item explica quase todo ele
Dica WebFrete
Como ler a última coluna: as variações vêm do Comunicado CONET de agosto de 2026 e os pesos vêm da pesquisa da NTC&Logística divulgada em março de 2026. A multiplicação entre as duas séries é cálculo da WebFrete, não número publicado pela entidade. Serve para ordenar prioridade, não como índice oficial.
O Comunicado CONET decompõe a variação de custo do primeiro semestre de 2026. Três itens se movem em velocidades muito diferentes, e o que mais subiu é justamente o que mais pesa.
- Combustível responde por 43,2% da estrutura de custo do transporte rodoviário de cargas.
- Veículos respondem por 29,1% e motoristas por 19,5%.
- Juntos, os três concentram 91,8% do custo. Negociar os 8,2% restantes quase não muda a conta.
| Item de custo | Variação no 1º semestre de 2026 | Peso na estrutura de custo do TRC | Contribuição estimada para a alta |
|---|---|---|---|
| Combustível | +17,63% | 43,2% | 7,62 pontos percentuais |
| Mão de obra | +5,00% | 19,5% | 0,98 ponto percentual |
| Caminhão | +1,32% | 29,1% | 0,38 ponto percentual |
| Soma dos três | 91,8% | 8,98 pontos percentuais |
Por que o repasse trava, mesmo com o custo à vista
Custo subindo não vira frete maior automaticamente. A mesma pesquisa da NTC&Logística divulgada em março de 2026 mostra por quê: a maior limitação ao crescimento do setor apontada pelas empresas é a piora do mercado interno, citada por 40,7%. Demanda fraca reduz o poder de repassar preço.
A escassez de motoristas aparece em segundo lugar, com 28,1%, e a dificuldade de acesso a capital em terceiro, com 17%. É uma combinação ruim: quando falta caixa para segurar a operação, aceitar frete abaixo do custo vira decisão de curto prazo com conta longa.
A expectativa declarada para 2026 reforça o quadro. Entre as empresas ouvidas, 57% esperavam mercado estável, 29,6% esperavam piora e 13,3% esperavam melhora. Num cenário assim, quem recompõe preço precisa levar dado à negociação, não apenas argumento.
- 1Piora do mercado interno: 40,7% das empresas apontam como principal limitação.
- 2Escassez de motoristas: 28,1%.
- 3Dificuldade de acesso a capital: 17%.
O custo escondido: a estrada ruim queima diesel que ninguém cobra
Dica WebFrete
Rota importa na formação de preço. Dois fretes com a mesma distância e a mesma carga podem ter custo diferente só pelo estado do pavimento.
Existe um item de custo que não aparece na planilha e ainda assim sai do bolso do transportador. A Pesquisa CNT de Rodovias 2025, que avaliou 114.197 quilômetros de rodovias pavimentadas, estimou que a má qualidade do pavimento provocou consumo adicional de 1,2 bilhão de litros de diesel no ano.
Convertido em dinheiro, isso representa cerca de R$ 7,21 bilhões de prejuízo ao setor e 3,17 milhões de toneladas de gases de efeito estufa emitidos sem transportar uma tonelada a mais. Segundo a CNT, a qualidade do pavimento eleva em média 31,2% os custos operacionais do transporte rodoviário.
A pesquisa também registra melhora: a extensão classificada como ruim em rodovias públicas caiu 23,3%, de 21.630 km em 2024 para 16.594 km em 2025. Nas rodovias privatizadas a queda foi de 61,6%, de 1.609 km para 618 km. Melhora real, mas insuficiente para neutralizar o consumo extra.
Diesel: o número que muda toda semana e manda na conta
Como o combustível é 43,2% do custo, o preço do diesel é a variável que mais move o resultado. Na semana de 23 a 29 de agosto de 2026, o levantamento da ANP em 3.094 postos apurou preço médio de R$ 6,88 por litro para o óleo diesel S10 no Brasil. O diesel comum, B S500, ficou em R$ 6,47.
A média nacional esconde diferença regional relevante para quem monta rota longa.
- Maior média estadual na semana: Acre, com R$ 8,32 por litro.
- Menor média estadual na semana: Rio Grande do Sul, com R$ 6,57 por litro.
- A diferença de R$ 1,75 por litro entre os dois extremos equivale a R$ 700 numa viagem de 1.000 km a 2,5 km por litro.
- Este preço muda toda semana. Antes de fechar tabela, puxe o levantamento da semana corrente no site da ANP.
| Região | Diesel S10, preço médio de revenda (23 a 29/08/2026) |
|---|---|
| Norte | R$ 7,19 |
| Nordeste | R$ 7,00 |
| Sudeste | R$ 6,82 |
| Centro-Oeste | R$ 6,80 |
| Sul | R$ 6,76 |
| Brasil | R$ 6,88 |
Como recompor o frete na prática, passo a passo
Para quem quer montar a planilha do zero, o passo a passo detalhado está no guia de custos operacionais de caminhão. Para entender quanto realmente sobra depois de tudo, veja quanto sobra de lucro líquido para o caminhoneiro autônomo. E para conferir o piso legal antes de fechar valor, a referência é a tabela ANTT de piso mínimo de frete.
- 1Levante o custo real da sua operação por quilômetro rodado, separando combustível, mão de obra, veículo, manutenção, pneus e custos fixos. Sem essa base, o reajuste vira palpite.
- 2Compare o seu custo com a variação publicada pelo DECOPE no período. Se o seu combustível subiu menos de 17,63% no primeiro semestre, entenda por quê antes de comemorar: pode ser eficiência real ou pode ser cálculo incompleto.
- 3Calcule o reajuste por divisão, não por soma. Divida o custo pelo percentual do frete atual, como no bloco de cálculo acima, e não subtraia percentual de percentual.
- 4Inclua a rota na conta. Trecho com pavimento ruim consome mais diesel e mais manutenção, e a CNT estima até 31,2% de impacto médio no custo operacional.
- 5Traga os componentes tarifários para a mesa. A recomendação da própria NTC&Logística é revisar também Frete-Valor, GRIS, TSO e gerenciamento de risco, não apenas o valor cheio do frete.
- 6Documente a proposta com fonte e data. Negociação com dado datado sustenta reajuste; negociação com percepção não sustenta.
- 7Reveja o cálculo a cada trimestre. Combustível oscila semanalmente e a defasagem publicada muda a cada comunicado.
Perguntas frequentes sobre a defasagem do frete
Q.Qual é a defasagem do frete no Brasil em 2026?
A.A defasagem média apurada é de 10,5% entre os valores de frete praticados no mercado e os custos efetivos do transporte rodoviário de cargas. O número consta do Comunicado CONET publicado pela NTC&Logística em 27 de agosto de 2026, com apuração do DECOPE.
Q.Se o frete está 10,5% abaixo do custo, o reajuste também é de 10,5%?
A.Não. A defasagem é medida contra o custo e o reajuste incide sobre o frete, que é a base menor. Para empatar com o custo é preciso dividir o frete por 0,895, o que resulta em 11,73% de reajuste. Pedir 10,5% deixa a operação ainda abaixo do custo.
Q.O que mais encareceu o transporte em 2026?
A.O combustível. Segundo o Comunicado CONET de agosto de 2026, ele subiu 17,63% no primeiro semestre, contra 5,00% da mão de obra e 1,32% do caminhão. Como o combustível responde por 43,2% da estrutura de custo do setor, é ele que domina a alta.
Q.Quanto custa o diesel S10 hoje?
A.Na semana de 23 a 29 de agosto de 2026, o levantamento da ANP em 3.094 postos apurou média nacional de R$ 6,88 por litro para o diesel S10. O valor muda semanalmente, então confira o levantamento da semana corrente no site da ANP antes de usar na tabela.
Q.O estado da estrada entra no custo do frete?
A.Entra, mesmo sem aparecer na planilha. A Pesquisa CNT de Rodovias 2025 estimou 1,2 bilhão de litros de diesel consumidos a mais por causa da má qualidade do pavimento, o equivalente a cerca de R$ 7,21 bilhões, e calcula impacto médio de 31,2% nos custos operacionais.
Q.A WebFrete cobra comissão sobre o frete?
A.Não. A comissão sobre o valor do frete é 0%. O valor negociado entre empresa e caminhoneiro fica integralmente com as partes, e a emissão de CT-e e MDF-e já está disponível na plataforma.
Referências
Fontes consultadas
- Comunicado CONET de agosto de 2026 — defasagem de 10,5% entre frete praticado e custo efetivo — NTC&Logística (DECOPE). Acesso em 02/09/2026.
- Índice Nacional do Custo do Transporte (INCT) — metodologia e séries do DECOPE — NTC&Logística. Acesso em 02/09/2026.
- Pesquisa NTC&Logística sobre escassez de motoristas no TRC — divulgada em março de 2026 — NTC&Logística. Acesso em 02/09/2026.
- Pesquisa CNT de Rodovias 2025 — painel de resultados e custo do pavimento — Confederação Nacional do Transporte. Acesso em 02/09/2026.
- Levantamento de Preços de Combustíveis — últimas semanas pesquisadas — ANP. Acesso em 02/09/2026.
Revisado por Equipe WebFrete em 02/09/2026. Defasagem e variação de custo transcritas do Comunicado CONET de agosto de 2026 (NTC&Logística/DECOPE). Estrutura de custo e limitações ao crescimento vêm da pesquisa da NTC&Logística divulgada em março de 2026. Consumo adicional de diesel e impacto do pavimento vêm da Pesquisa CNT de Rodovias 2025. Preços de combustível lidos na planilha semanal da ANP referente a 23 a 29 de agosto de 2026. A coluna de contribuição estimada para a alta é cálculo próprio a partir de duas séries distintas e está identificada como tal no texto.
““Defasagem não é sensação de quem dirige. É a diferença entre dois números que a própria entidade do setor publica: o que o frete paga e o que a operação custa.”
Negocie o frete com a conta na mão
Na WebFrete a comissão sobre o frete é 0%. Empresa publica a carga, caminhoneiro compara origem, destino e valor, e a emissão de CT-e e MDF-e já está no ar.